Por que o treinamento da equipe faz parte do compliance

Sofia Valenska
Sofia Valenska
Paulo de Matos Junior

Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro, nas áreas de câmbio e intermediação de criptoativos, chama atenção para uma ideia equivocada sobre compliance nas prestadoras de ativos virtuais: a de que basta ter sistemas de monitoramento, políticas escritas e relatórios em dia. Compliance é o conjunto de práticas que garante o cumprimento das regras, tanto externas, como as normas do Banco Central, quanto internas, e muitas falhas surgem do comportamento de pessoas, e não de defeitos tecnológicos. Em um setor sob nova regulação, preparar a equipe é parte tão importante quanto instalar ferramentas.

O que é treinamento de compliance na prática?

Treinamento de compliance é a capacitação periódica de todos os funcionários sobre as regras que a empresa precisa cumprir, como prevenção à lavagem de dinheiro, proteção de dados, segurança da informação e atendimento ao cliente. Ele inclui explicar as normas, mostrar exemplos reais de falhas e testar se a equipe sabe como agir diante de cada situação.

Para Paulo de Matos Junior, o treinamento precisa ser contínuo, e não um evento anual de formalidade. Regras mudam, golpes se sofisticam e novos funcionários chegam, de modo que a capacitação só cumpre seu papel quando acompanha essa renovação e se conecta ao trabalho diário de cada área.

Situações em que a capacitação evita falhas

No atendimento, um funcionário treinado reconhece quando um cliente pede para alterar dados de contato logo antes de uma grande retirada, padrão comum em tomadas de conta. Sem preparo, a solicitação seria tratada como rotina e aprovada, abrindo caminho para o golpe. O mesmo vale para pedidos de reset de senha feitos por canais não oficiais ou com informações incompletas, que o atendente treinado sabe recusar ou encaminhar para validação adicional antes de qualquer alteração.

Na área de análise, a equipe precisa saber interpretar alertas do sistema. Um alerta de movimentação atípica pode ter explicação legítima ou indicar uma tentativa de lavagem, e a diferença exige critério, não apenas ferramenta, segundo destaca Paulo de Matos Junior. Analistas capacitados sabem quais perguntas fazer, quais documentos pedir e quando levar o caso ao responsável pela prevenção à lavagem de dinheiro, em vez de arquivar o alerta por falta de segurança sobre o que fazer.

Paulo de Matos Junior
Paulo de Matos Junior

Engenharia social e a proteção dos criptoativos

A engenharia social, técnica que explora a confiança de pessoas para obter acessos ou informações, é uma das principais portas de entrada de ataques contra empresas de criptoativos. O criminoso se passa por fornecedor, executivo ou suporte técnico e pede senhas, códigos ou aprovações urgentes, apostando na pressa do funcionário.

Funcionários treinados aprendem a desconfiar de urgência fora do comum, a confirmar pedidos por um segundo canal e a nunca compartilhar credenciais. Sugere Paulo de Matos Junior que simulações periódicas, em que a empresa envia mensagens falsas controladas para testar a reação da equipe, ajudam a medir se o aprendizado se converte em comportamento.

Como saber se o treinamento funciona?

Medir resultados evita que a capacitação vire formalidade. Indicadores úteis incluem a taxa de acerto em avaliações, o número de alertas internos reportados por funcionários e o tempo de resposta a incidentes simulados. Quedas nesses números indicam que o conteúdo precisa ser revisto. Também ajuda coletar o retorno dos próprios funcionários, que sabem onde as regras são mais difíceis de aplicar e podem apontar situações reais que o treinamento ainda não cobre.

A diretoria também tem papel decisivo. Quando os gestores participam, cobram a aplicação das regras e tratam erros como oportunidade de aprendizado, a cultura de compliance ganha força. Já em empresas em que o treinamento é visto como obrigação burocrática, as falhas tendem a se repetir, mesmo com boa tecnologia.

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