País conhecido pela educação digital se junta a Finlândia e outras nações que recuam no uso de telas em sala de aula.
A Suécia, um dos países mais associados à tecnologia educacional do mundo, anunciou que vai proibir o uso de celulares nas escolas a partir do próximo ano letivo, que começa no outono europeu. A decisão chama atenção justamente por vir de um país que, nos últimos anos, investiu pesado em laptops, tablets e aplicativos de aprendizagem dentro das salas de aula. A pergunta que fica é: por que um dos sistemas educacionais mais digitais do planeta está dando um passo atrás? A resposta tem relação direta com a queda nos níveis de leitura entre os estudantes suecos e se conecta a um movimento internacional mais amplo de revisão do uso de telas na escola, que já passa pelo Brasil, por outros países nórdicos e por distritos escolares nos Estados Unidos.
O que motivou a decisão sueca
Segundo informações divulgadas pela agência de notícias americana NPR a partir de reportagem feita em Malmö, a coalizão de centro-direita que governa a Suécia desde 2023 vem priorizando uma política de mais tempo de leitura e menos tempo de tela, especialmente entre estudantes da pré-escola, favorecendo livros e outras ferramentas tradicionais de aprendizagem. O parlamentar Joar Forsell, que preside a comissão de educação do parlamento sueco, afirmou que as autoridades observaram uma queda na capacidade geral de leitura e escrita no país, principalmente entre os estudantes mais jovens. O dado que sustenta essa preocupação vem do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): 24,3% dos estudantes suecos do nono ano não atingiram o nível básico de compreensão de leitura, percentual próximo da média da União Europeia, de 26,2%.
A proibição soma-se a restrições que muitas escolas suecas já vinham aplicando de forma independente, antes mesmo de existir uma regra nacional, e busca construir ambientes de aprendizagem com menos distrações. Junto com a medida, o governo sueco reservou neste ano 555 milhões de coroas suecas, equivalentes a cerca de 59 milhões de dólares, como parte de um novo programa de subsídios para a compra de livros didáticos e guias para professores. Essa combinação entre proibição de celulares e investimento em material impresso mostra que a estratégia sueca não se limita a tirar a tecnologia da sala de aula, mas busca também reforçar deliberadamente o uso de métodos de ensino mais tradicionais, como resposta direta à queda nos indicadores de leitura registrada nos últimos anos.
Um movimento que já passa por vários países
A decisão sueca não é um caso isolado. De acordo com a mesma reportagem, a Dinamarca está perto de implementar uma proibição semelhante, enquanto uma lei restringindo o uso de celulares nas escolas finlandesas já entrou em vigor em agosto do ano passado. Outros países, como Espanha e Coreia do Sul, também adotaram medidas que variam entre a proibição completa de celulares em sala de aula e limites específicos para tarefas de casa que dependem de telas. Nos Estados Unidos, o Distrito Escolar Unificado de Los Angeles, segundo maior do país, anunciou que vai banir telas até o segundo ano do ensino fundamental, impor limites diários de tempo de tela por série escolar, proibir o uso do YouTube e auditar todos os contratos de tecnologia educacional do distrito.
O Brasil já vive uma versão desse debate desde o início de 2025, quando entrou em vigor a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos portáteis em escolas públicas e particulares de educação infantil, ensino fundamental e médio, inclusive durante o recreio. A norma brasileira não proíbe totalmente o uso do celular, mas estabelece restrições de caráter protetivo, permitindo o aparelho em situações pedagógicas específicas, de acessibilidade, inclusão ou necessidades de saúde. O Ministério da Educação anunciou que vai realizar, ainda neste ano, uma pesquisa nacional para avaliar os efeitos da lei brasileira após o primeiro ano de vigência, o que mostra que o país também está no meio de um processo de avaliação parecido com o que move agora a decisão sueca.
O que esse movimento internacional sinaliza para o futuro da escola
O caso sueco é especialmente simbólico porque inverte uma trajetória que o próprio país ajudou a liderar global. A Suécia é sede de empresas como o serviço de streaming musical Spotify e a gigante de telecomunicações Ericsson, e construiu, ao longo de anos, um dos sistemas educacionais mais avançados digitalmente do mundo. O fato de um país com esse histórico decidir recuar no uso de celulares e reforçar o uso de livros impressos reforça a ideia de que a presença de telas em sala de aula deixou de ser vista, por boa parte dos governos, como sinônimo automático de modernização pedagógica, passando a ser tratada como uma escolha que precisa ser avaliada com base em resultados concretos de aprendizagem.
Para gestores e famílias brasileiras, esse panorama internacional funciona como um ponto de comparação útil: o Brasil não está isolado na decisão de restringir celulares nas escolas, mas integra um movimento que atravessa continentes diferentes, da Escandinávia aos Estados Unidos, passando pela Península Ibérica e pela Ásia. A diferença está principalmente no momento em que cada país adotou a medida e na forma como cada sistema educacional avalia seus resultados, mas o objetivo declarado costuma se repetir: reduzir distrações, proteger a saúde mental dos estudantes e recuperar espaço para métodos de ensino tradicionais, como a leitura de livros físicos.
A experiência sueca deve ser acompanhada de perto nos próximos meses, já que o país funciona como referência em políticas educacionais digitais e os resultados da nova restrição podem influenciar decisões em outros lugares, incluindo o Brasil. Enquanto isso, a comparação entre os diferentes modelos adotados no mundo ajuda a entender que não existe uma única receita para lidar com o tema, mas sim um conjunto de experiências locais que, juntas, mostram uma mudança de direção bastante clara: depois de anos investindo pesado em tecnologia dentro da sala de aula, vários países agora trabalham para encontrar um equilíbrio melhor entre telas e aprendizagem.
Fontes consultadas:
https://www.npr.org/2026/06/09/g-s1-126967/sweden-set-to-ban-mobile-phones-in-schools
https://www.camara.leg.br/noticias/1126717-sancionada-lei-que-proibe-o-uso-de-celular-em-escolas/
https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/mec-realizara-pesquisa-sobre-restricao-de-celulares-nas-escolas
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
