Joe Biden completou nesta sexta-feira, 30, cem dias na presidência dos Estados Unidos. Desde que assumiu o comando da Casa Branca em 20 de janeiro, o democrata deixou claro que a sua prioridade era combater a pandemia do novo coronavírus e remediar a crise econômica causada por ela. No entanto, ainda sobrou tempo para o chefe de Estado reverter políticas que tinham sido implementadas pelo seu antecessor, Donald Trump, e começar a enfrentar a resistência dos republicanos para aprovação de outras medidas. Um levantamento feito pela agência de notícias Reuters com o instituto de pesquisa Ipsos aponta que 55% dos norte-americanos aprovam Biden, um nível de validação jamais atingido por Trump. Para Marcus Vinicius de Freitas, especialista em Relações Internacionais, isso se deve principalmente à estabilidade conquistada recentemente. “Não há dúvida de que uma das grandes contribuições desses cem dias do período Biden na presidência foi a calmaria que passou a reinar nos Estados Unidos depois do governo Trump. O que nós vimos não foi tanto uma mudança na questão do conteúdo, mas houve com certeza uma mudança de estilo”, afirmou. Veja a seguir os temas que pautaram o governo dos Estados Unidos nos últimos três meses:

Covid-19

A aprovação de Joe Biden entre os norte-americanos é ainda maior quando o assunto é especificamente o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. De acordo com a pesquisa da Reuters-Ipsos, 65% gostam do que está sendo feito pelo atual governo, enquanto em janeiro apenas 38% confiavam na abordagem adotada até então por Donald Trump. Apesar do democrata ter parcialmente se beneficiado de uma campanha de vacinação contra Covid-19 já iniciada por seu antecessor, cabem a ele os créditos pela implementação de novos locais de imunização em massa. “Biden fez com que o país cuidasse da questão da Covid-19 de uma maneira mais intensa do que estava sendo feito anteriormente”, reconhece Freitas. No fim das contas, Biden não só cumpriu a sua promessa de campanha de vacinar 100 milhões de norte-americanos em 100 dias como também teve tempo de sobra para dobrar a meta para 200 milhões e batê-la novamente antes do prazo estipulado. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) calcula que, atualmente, 42% dos norte-americanos receberam pelo menos uma dose da vacina, enquanto 28,5% já foram completamente imunizados. Porém, as próximas semanas devem ser desafiadoras: o ritmo da vacinação caiu ao alcançar os jovens como público-alvo.

Economia

As primeiras semanas de Joe Biden na Casa Branca também foram bastante voltadas para a aprovação de um estímulo de US$ 1,9 trilhão para remediar as consequências econômicas da pandemia. Além disso, houve uma extensão do auxílio-desemprego de US$ 300 por semana até setembro e a criação de quase um milhão de empregos no país só em março. A expectativa é que o crescimento dos Estados Unidos passe de 7% esse ano, mas é importante considerar que o presidente se beneficia do fato desse desempenho ser comparado a 2020, quando houve o pior resultado em 74 anos, com uma contração de 3,5% do PIB. “É claro que muito disso é resultado de políticas que foram implementadas pelo governo anterior. Porém, eu acredito que o Biden conseguiu manter os resultados positivos do governo Trump, particularmente no sentido da recuperação econômica dos Estados Unidos”, defende o especialista em Relações Internacionais. Colocando esses elementos na balança, o saldo foi uma aprovação de 50% dos norte-americanos no que diz respeito às políticas de Biden para a economia, apenas alguns pontos percentuais acima das avaliações de Donald Trump em seus últimos meses no cargo. Ainda é preciso aguardar para ver como a população reagirá aos planos do democrata de aumentar os impostos sobre os mais ricos, em parte para financiar o seu plano trilionário de reformar a infraestrutura e, de quebra, criar mais empregos.

Imigração

Também foram logo nos primeiros dias após a sua posse que Biden reverteu algumas políticas imigratórias que tinham sido implementadas por Trump. Ele suspendeu a construção do muro na fronteira com o México, retirou o veto aos imigrantes de países de maioria muçulmana e retomou o programa Daca, que concede autorização de trabalho e residência a jovens que não possuem documentos. No início de março, o presidente avançou mais um pouco nessa questão quando concedeu o Status de Proteção Temporária (TPS) aos cerca de 320 mil venezuelanos que já estão vivendo nos Estados Unidos. Desde então, esses estrangeiros podem residir e trabalhar legalmente no país por um prazo extensível de 18 meses. De lá para cá, no entanto, as iniciativas no campo da imigração estagnaram e se tornaram o principal arcabouço de críticas. Contrariando expectativas, Biden decidiu em abril que manterá em 15 mil a cota de refugiados recebidos pelo país a cada ano, sendo que no máximo 3 mil poderão ser procedentes da América Latina e do Caribe. A quantidade total, que tinha sido estabelecida por Donald Trump, é considerada a mais baixa da história e vai totalmente contra a promessa do democrata de elevar o número para 62,5 mil. Fontes ligadas à Casa Branca justificaram a medida citando a necessidade de reconstruir o programa de reassentamento de refugiados, que estaria “ainda mais dizimado” do que Biden imaginava inicialmente, além dos desafios apresentados pela pandemia do novo coronavírus. De fato, poucos dias antes tinham sido divulgadas fotos de aglomerações em um centro temporário no Texas, onde centenas de pessoas usavam máscaras de forma incorreta e estavam impossibilitadas de respeitar o distanciamento social enquanto dormiam em colchonetes no chão. Considerando tudo isso, Biden conseguiu desagradar tanto os republicanos contrários à abertura do país quanto os democratas que esperavam um avanço nesse sentido, e acabou ficou com 49% de desaprovação entre os norte-americanos, o que mostra que a política imigratória deve continuar sendo um desafio para a Casa Branca. “A questão imigratória é extremamente complexa porque os Estados Unidos são um país de imigrantes. O presidente Joe Biden quis dar uma aliviada nas medidas adotadas por Donald Trump em atendimento a essa perspectiva humanitária da questão imigratória. Mas, por outro lado, a imigração que entra nos Estados Unidos muitas vezes cria desafios para a administração norte-americana na questão do narcotráfico, da violência e do emprego. Nenhum presidente dos Estados Unidos consegue efetivamente resolver essa equação dramática”, analisa Freitas.

Política Externa

Os 100 primeiros dias de Joe Biden na presidência dos Estados Unidos deixaram clara a mensagem de que a política isolacionista do “America First” de Donald Trump chegou ao fim. Logo de cara, o democrata assinou a papelada para que o país voltasse a fazer parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Acordo de Paris. Mais recentemente, ele conseguiu reunir líderes de 40 países para a Cúpula do Clima e assumiu o compromisso frente à comunidade internacional de reduzir as emissões de carbono norte-americanas em 52% até 2030, decisões bastante elogiadas por Angela Merkel, Boris Johnson e Emmanuel Macron. “O retorno dos Estados Unidos à mesa de negociações climáticas era um ponto importante para os países europeus, que sentiam que estavam cambaleando sem a presença norte-americana”, explicou o especialista em Relações Internacionais Marcus Vinicius Freitas. Ao mesmo tempo, o presidente está afastando qualquer tipo de temor ao manter o pulso firme com os maiores inimigos do Ocidente. “Esperava-se que ele fosse um pouco parecido com a administração Obama, mas nós vimos um Biden mais assertivo em sua determinação internacional”, analisa Freitas. Afinal, o democrata chamou o presidente Vladmir Putin de “assassino” e ainda impôs sanções à Rússia, cujo governo está sendo acusado de envenenar o líder da oposição Alexei Navalny, realizar ciberataques e interferir nas eleições de 2020 a favor de Trump. A relação com a China também está marcada pela troca de farpas: o governo norte-americano manteve as tarifas comerciais impostas ao país asiático e também condenou as ações de Pequim contra a liberdade de Hong Kong e Taiwan. Da mesma forma, foram mantidas as sanções contra o Irã enquanto a nação do Oriente Médio não voltar a cumprir o acordo nuclear. Outro ponto destacado por Freitas foi o anúncio da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão. “Esse é um anúncio importante, porque essa foi uma das guerras mais caras e longas travadas pelos Estados Unidos sem um resultado efetivo”, afirmou. Todas essas medidas conquistaram 48% dos norte-americanos, segundo uma pesquisa de opinião realizada pela emissora de televisão britânica CNN com a empresa SSRS.

Violência

Os tiroteios em massa, que tinham diminuído durante a pandemia do novo coronavírus, voltaram a alarmar os Estados Unidos em 2021. Por isso, no início de abril Biden anunciou uma série de ações executivas que dificultam o acesso às chamadas “armas fantasma”, que por serem fabricadas de maneira caseira, não possuem números de série que permitem que elas sejam rastreadas. Além disso, o democrata lançou incentivos para os estados removerem a permissão de porte de armas a pessoas que representem um risco para elas mesmas e para a sociedade, anunciou um acompanhamento maior sobre o tráfico de armas de fogo e lançou investimentos em programas de intervenção em comunidades que tenham altos índices de violência. O presidente gostaria de ir além, ampliando as verificações de antecedentes necessárias para comprar armas e até proibindo a venda de semiautomáticas, mas enfrenta resistência por parte dos republicanos e de uma boa parcela da população: o levantamento da CNN com a SSRS aponta que apenas 40% aprovam a política de armas de Biden.