A soldado Jéssica Paulo do Nascimento, que teve sua exoneração da Polícia Militar publicada oficialmente no fim de maio, voltou a receber ataques por parte de agentes da corporação. Dessa vez, de forma indireta. As denúncias são contra um sargento do 45º BPM/I, da Praia Grande, unidade para a qual Jéssica foi transferida em abril deste ano após dois anos afastada depois de ter sido assediada e ameaçada de morte por um tenente-coronel do 50º BPM em São Paulo. Nos últimos dias, a soldado recebeu prints anônimos que indicavam a criação de um grupo no WhatsApp com o nome “Todos odeia Jéssica”, que tinha o objetivo de fomentar ódio e incentivar pessoas contra ela. À Jovem Pan, o advogado de defesa da Jéssica declarou que as medidas cabíveis já foram tomadas junto à Corregedoria afim de que a conduta do sargento e de uma policial também identificada nos prints sejam devidamente apuradas através da instauração de um inquérito policial militar, bem como um processo administrativo regular, visando se eles tem condições ou não de permanecer nas fileiras da corporação.

Entenda

Desde o segundo semestre 2018, Jéssica sofria investidas por parte do tenente-coronel identificado como Novaes. Ao não corresponder ao assédio, ela foi transferida para uma companhia 30 quilômetros distante do Batalhão que atuava na época e impedida de realizar cursos para ingressar no Corpo de Bombeiros. No início de 2019, ela passou por psicólogos e decidiu usufruir de dois anos de licença. Ao retornar ao trabalho, em meados de março de 2021, ela foi informada que voltaria para o mesmo Batalhão do tenente-coronel Novaes. Ela solicitou a transferência para a Praia Grande e o superior voltou a assediá-la. Novaes tentou encontrá-la na sexta-feira, 2 de abril, feriado de Sexta-Feira Santa. Ela questionou se a Delegacia estaria funcionando normalmente e o policial afirmou que só ele “iria funcionar”. Em outro momento o superior teria mandado a mensagem: “Vou te estuprar, carioca fogaça”.

No mesmo dia, ela denunciou o tenente-coronel Novaes por assédio à Corregedoria da PM, que abriu um inquérito e convocou os envolvidos na denúncia para depor. Ao iniciar o trabalho no 45º BPM/I, na Praia Grande, Jéssica foi recebida com indiferença pelos colegas. Na época, Jéssica falou à Jovem Pan que sentiu uma recepção nada amigável, mas pensou que era porque não a conheciam. Com o passar do tempo, porém, a situação não melhorou. “Comecei a ser perseguida de forma bem suja, eles perceberam que o meu psicológico não estava bom, devido a tudo isso que eu passei, ameaça de morte, de estupro, e mesmo assim me colocaram para trabalhar na rua, sendo que tem a opção administrativa de quando o policial não está bem psicologicamente, ou está passando por um problema delicado como eu, geralmente dão a opção de trabalhar interno”, explicou.

Na época, ela foi examinada por um profissional de saúde da PM para narrar problemas psicológicos pelos quais estava passando e teria ouvido dele que só seria afastada do serviço se outro colega capitão, que não era médico, autorizasse. Na mesma época, ao solicitar as férias referentes ao ano de 2019, a qual ela teria direito, o sargento responsável afirmou que ela teria que, primeiro, pedir exoneração. Após buscar um advogado, ela entrou de férias sem pedir a baixa da Polícia Militar. Entretanto, diante das perseguições, ela assinou a exoneração no dia 26 de maio de 2021. Na semana seguinte ela teve acesso ao prints, enviados para ela de forma anônima.

Na mesma petição enviada à Corregedoria pela defesa da Jéssica sobre o grupo de WhatsApp, também foi requerida a imposição de medidas protetivas a favor da soldado PM Jessica, de tal forma que o sargento PM se abstenha de manter qualquer tipo de contato com ela, bem como mantenha sempre a distância de pelo menos 300 metros dela e de familiares. A defesa também pede a suspensão do porte e posse de arma de fogo do sargento, que ele seja transferido de Batalhão e que os autos sejam encaminhados ao Ministério Público da Justiça Militar para que tenham ciência de tudo o que está acontecendo.