O número é impactante: todos os dias são notificados, em média, 243 diferentes tipos de agressões contra crianças e adolescentes. Os dados foram divulgados pela Sociedade Brasileira de Pediatria, extraídos do Sistema Nacional de Agravos de Notificação, mantido pelo Ministério da Saúde. Em 2019, foram 88.572 notificações, sendo que 60% dessas ocorrências aconteceram no ambiente doméstico. Marco Antônio Chaves Gama, membro da entidade de pediatria, afirma que, no entanto, os números podem ser até 20 vezes maior. “Ela é em todas as classes sociais, em todas as religiões, ela é em todas as etnias e em todas situações de escolaridade dos pais, da menor para a maior. Então temos que desmistificar isso, porque todo mundo pode fazer um ato de violência contra crianças ou adolescentes.”

O especialista ressalta que este é um tema urgente a ser tratado, não só pelo viés criminal, de punir o agressor, mas também do impacto psíquico nas vítimas, crianças e adolescentes que, muitas vezes, sequer têm o entendimento de que estão sofrendo violência. Nesse sentido, o apoio de quem convive com a família é essencial. O psiquiatra Cirilo Tissot vai além, alertando que quem silencia tem parte da responsabilidade. “Muitos dos sinais aparecem nas relações sociais. A criança  muda o comportamento e essa mudança de comportamento passa a não cumprir com certas tarefas que estava acostuma a cumprir, se ela está na escola e costuma ir ao recreio, ela não vai ao recreio, fica dentro da classe, as pessoas começam a perceber que ela para de brincar”, disse. Ele orienta como deve ser a aproximação de alguém que observa que há algo errado: é preciso dar segurança para a criança se abrir e fazer uma escuta sem supor situações, deixar que a vítima traga a violência. Confirmada a agressão, a indicação é procurar a polícia e o Conselho Tutelar. Para quem não quiser se identificar, a denúncia pode ser feita pelo disque 100.

*Com informações da repórter Carolina Abelin